Nasci numa época bem interessante: a inflação galopante somada à recém pseudo-democracia adicionada ao também recente liberalismo feminista fez com que eu e a maioria de meus contemporâneos padecessem do mesmo mal: excesso de companhia da televisão. Não entendeu nada? Espere o comercial que eu explico.
Com a política de congelamento dos preços do Sarney e o quente “Plano Verão” de Collor passamos anos e anos com uma economia estruturada em alicerces de vidro. Quem tem mais de 20, com certeza sabe do que estou falando. O salário mínimo era vergonhoso (como se o de hoje não fosse) e a inflação destruía o poder de compra de qualquer um. Lembro das intermináveis “compras coletivas” que meu pai fazia, reunindo um grupo de amigos para comprar vários produtos no atacado para fazer o dinheirinho valer um pouco mais. Com a situação financeira tão complicada só bastava às mulheres aproveitarem as cinzas de tantos sutiãs queimados e invadirem o mercado de trabalho a fim de complementar a renda familiar.
Assim, para garantir que tivéssemos carne na janta meu pai trabalhava o dia todo em uma empresa, a noite fazia bicos em outra, enquanto minha mãe cortava cabelo, fazia salgadinho, lavava e passava roupa e ainda cuidava da casa e de dois filhos. Com os pais tão ocupados só restava às crianças passar boa parte do tempo com a melhor babá e mais eficiente método de controle da natalidade já inventado. A TV a cores.
Hipnotizado do início ao fim, passei/perdi muito tempo em frente à televisão. E diante de tudo que vi ser transmitido na infância, agora todas as coisas que eu vejo me parecem iguais. E não é para menos. Com o fim da ditadura militar todo mundo achou que podia fazer o que quisesse na TV. Se isso foi bom? Sinceramente não sei. A única coisa que tenho certeza é que as crianças da minha época estavam sempre em boa companhia:

O grupo Balão Mágico (que desde aquela época já esboçava o que seria a atual “cota para negros”, inserindo um moreninho por último em sua formação) havia perdido lugar para a Xuxa. Uma linda gaúcha, atriz de filmes sensuais que usava micro shorts, bota de cano longo e era acompanhada por uma dezena de outras loiras com figurino tão atrativo quanto.
Em outra emissora podia se encontrar o Fofão, um ser horrendo que parecia ter os testículos na cara;
o Bozo, conhecido alcoólatra, gravava muitas vezes embriagado e que em uma ocasião chegou a sugerir que os pais de uma criança fosse tomar naquele lugar (tem até vídeo no Youtube);
falando em alcoólatra não poderíamos esquecer do finado Mussum, o melhor dos trapalhões;
falando em alcoólatra não poderíamos esquecer do finado Mussum, o melhor dos trapalhões;

o Sérgio Malandro, já até assumiu ser usuário de cocaína e ainda por cima apresentava um programa intitulado “A hora do capeta”.
Lembro que a única apresentadora infantil dessa época que era um pouco equilibrada chamava-se Vovó Mafalda. Até onde se sabe ela não apelava para a sexualidade, não bebia e não cheirava. Só tinha um defeito: era o maior dos travecos.
Com essas companhias não é de se estranhar que hoje achemos tudo “normal”. Conheço uma infinidade de pessoas que lêem o jornal Daqui cedinho que é para começar bem o dia, almoçam assistindo ao Chumbo Grosso e mais tarde ainda dão risada do programa do Datena. Barbaridade é o que assistíamos na infância, o resto é brincadeira de criança.
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